Lembro do dia, há mais de 20 anos, em que conheci uma garota
bronzeada, vestindo biquíni branco, sentada à beira da piscina. Lembro de ter
criado coragem e me aproximado dela pra puxar conversa. Lembro que o papo
engatou e continuou, depois do clube, quando caminhamos juntos até o ponto de
ônibus onde nos despedimos. Lembro da vontade que senti de beijá-la naquele momento.
Recordo também do número do telefone que ela me passou naquele dia. E de ter
ligado e combinado de tomarmos sorvete algumas vezes depois da missa, no
domingo à noite. Lembro de nos encontrarmos na faculdade nos intervalos. E ali,
encostado na mureta de um corredor, próximo dos jardins, lembro do nosso
primeiro beijo. Aquele beijo que ela diz que praticamente me roubou, sem
perceber que estava roubando muito mais do que isso.
Lembro da gente ter se afastado, porque os sentimentos
vieram depressa demais. Lembro de ter me arrependido por ter deixado uma pessoa
tão especial ir embora. Lembro do dia em que nos reencontramos no clube e, mais
tarde, fui atrás dela na saída da igreja, mesmo sem ter marcado nada. Lembro
que nos beijamos no carro, depois do sorvete, e combinamos de sair para dançar.
E lembro, claro, da nossa dança no seu baile de formatura, quando começamos nosso
namoro.
Lembro da primeira vez que ela me disse “Eu te amo”,
fechando a grade do prédio com vergonha e me prendendo do lado de fora. Lembro
da primeira vez que eu disse “Eu te amo”, olhando pra ela no seu shortinho jeans
e aquela camisa listrada de branco e vermelho. Lembro do abraço forte e do
beijo quente que vieram depois disso.
Lembro da força que ela me deu, alguns meses depois, quando perdi
meu irmão. E do dia em ela propôs que a gente terminasse, porque teria que se
mudar e não poderia estar ao meu lado. Lembro que insisti para continuarmos
juntos, mesmo que distantes. E não esqueço da saudade que sentia, a cada
despedida na rodoviária.
Lembro da alegria que senti quando o telefone tocou e ela me
disse que estava voltando. Dos passeios, das viagens, dos cinemas, das festas e
de tudo que fizemos depois. Lembro que foram 4 anos que me fizeram sonhar e
apaixonar muito mais. E lembro do dia em que marcamos um almoço com os nossos
pais e o nosso namoro se transformou em noivado.
Lembro de ter ido ao cartório em Lagoa Santa, para combinar
nosso casamento civil lá no sítio. E recordo, como se fosse hoje, de vê-la com
aquele vestido branco, tão linda. Minha linda. Lembro que os amigos não me
deixaram muito tempo para admirá-la. Lembro de me embebedarem, vestirem de
noiva e desfilarem comigo de caminhonete pela cidade, filmando tudo numa fita esquecida
num canto qualquer lá de casa. Pouco lembro desse mico, ainda bem.

Há 18 anos que eu me lembro especialmente dessa cena. Porque
entre tantas lembranças que vieram antes e depois, toda vez que o nosso olhar
se reencontra, eu continuo sentindo a mesma coisa. E eu sei, pelo jeito dela me
olhar, que ela também se sente assim.